Kaiser Karl

Para o último dia da Paris Fashion Week estava guardado o desfile da Chanel, esperado com muita ânsia e expectativa, pois seria a apresentação da derradeira coleção produzida por Karl Lagerfeld. Depois do seu último trabalho para a Fendi ter sido apresentado em Milão, a espera para este dia de Chanel ficou ainda mais apertada e as emoções foram-se adiando até ao dia. E tudo acabou por ser muito, muito bonito e apropriado, como se esperava que fosse, desde o ambiente e emoções vividas até à própria coleção, que novamente fez por si só a homenagem ao criativo que perdemos há pouco tempo.

Karl Lagerfeld não era saudosista e muito menos vivia em reavaliações do passado. Pelo contrário, todo ele era futuro e quem trabalhou consigo durante décadas pôde confirmá-lo e ver que só desta forma se pode criar e produzir ao ritmo alucinante com que ele o fazia, e a rasgar sempre com tudo o que se conhece de forma única, a inovar, a surpreender e a liderar numa indústria em que parece que já se viu tudo… Só mesmo de alma e coração postos no futuro. Assim, foi fácil de compreender por que motivo nos últimos desfiles das suas coleções não iriam haver homenagens e ambiente pesado, mas sim a celebração de tudo o que aquele homem tinha sido.

O diretor criativo de ambas as casas Fendi e Chanel tinha deixado tudo preparado para a sua própria partida. Uma pessoa que não era dada à nostalgia e que nunca revisitava os seus trabalhos teria ficado muito feliz ao saber como foram feitos os seus dois grandes desfiles de outono/inverno 2019, pois realizaram-se sem cerimónias de adeus e o foco guardou-se para as novas coleções. Karl tinha deixado instruções pormenorizadas sobre como iria ser decorada a loja Chanel de Paris após a sua morte, de luto, e com que frase exata cada empregado receberia as condolências dos amigos e clientes nesta fase. Tudo foi deixado por escrito, ao detalhe, pelo homem que trabalhou até ao último suspiro.

Os resultados desta última dedicação estão agora ao nosso alcance, porque sem dúvida que ambas as coleções apresentadas têm a sua identidade e não só não falharam como (e já como sempre) surpreenderam. No caso de Fendi, cuja apresentação e coleção já tinha partilhado aqui, houve obviamente pormenores de tributo ao criador que tinha morrido apenas três dias antes. No cenário do desfile podia ver-se, assim como nos cartões deixados em cada cadeira para os convidados, um F com um coração, e no verso lia-se “Love, Karl”, na caligrafia do próprio.

Na coleção viram-se os grandes laços em muitos dos looks, assim como os colarinhos pontiagudos e até os rabos de cavalo das modelos, presos junto à nuca, tudo tal como Karl gostava de usar. O monograma da Fendi (de que já tinha falado) regressou ao seu clássico, tão reconhecido e característico da marca que até tinha designação própria: FF Karligraphy. O duplo F, que tinha sido criado por Karl em 1981 e era imagem de marca, foi agora visto um pouco por toda a coleção e conferiu-lhe ainda mais identidade.

 

 

 

 

 

 

Um conjunto de emoções e simbologias que culminaram, por fim, num pequeno vídeo que passou no fim da coleção para todos os convidados:

Um já mais velho Karl Lagerfeld recordava o primeiro outfit que tinha desenhado quando chegou à grande casa Fendi. Enquanto voltava a esse momento, desenhava-o novamente e descrevia-o: “Bem, isto é pré-história…mas eu lembro-me. Sabem, nos anos 1960, não nos contínhamos…”. A manequim desenhada tinha um chapéu Cerruti, cabelos longos, óculos escuros, gravata, um casaco tweed amarelo e vermelho em estilo britânico, conjugado com umas culottes à francesa e “uma mala que encontrei em Milão”.

O vídeo foi o fim perfeito para uma coleção que já tinha dito muito, sem falar.

“This show felt like a postcard from a guardian angel.”
– Vogue UK

 

Karl Lagerfeld tinha chegado à Fendi em 1965, o grande ano em que assumiu o controle da marca italiana e começava uma transformação de fundo nas suas características, desde a aplicação de técnicas pioneiras na costura à renovação da imagem da marca, tornando os seus famosos (e pesados) casacos de pêlo em peças mais leves e joviais, com novas cores e versões mais modernizadas. Foi nesta casa que assinou as suas primeiras coleções de pronto-a-vestir e que também iniciou as suas primeiras aventuras criativas ao nível dos desfiles: a apresentação da coleção teria de ter um contexto e a exuberância desses detalhes fazia parte de toda a história contada. Depressa começava a colaborar com outras marcas…

Lagerfeld foi dos primeiros grandes estilistas a trabalhar como freelancer, entre países como a Alemanha, França, Itália e Inglaterra. Entre outras participações, em 1964 começou a colaborar com a Chloé, anos marcantes da sua carreira, que no seu auge chegou a atingir a colaboração com oito (!!) marcas em simultâneo, lançando mesmo um total de dezasseis coleções num ano. Quem privou com Karl descreveu-o como um criador compulsivo, porque não só era incrivelmente criativo como ainda tinha as habilidades mais refinadas, um domínio técnico incomum e um profundo conhecimento de cultura geral. Tudo isto a ser aproveitado e posto em prática, resultava no génio.

O artista nunca largou a Fendi, até ao último dia da sua vida. Trabalhou com a marca desde 1965 até 19 de fevereiro de 2019 e a sua obra nunca será esquecida. Atualmente dividia a direção criativa com Silvia Venturini Fendi, que representa a terceira geração da sua família fundadora da marca, e por agora o lugar não será tomado por outra pessoa. Fica a saudade e a forte vontade de perpetuar estes 54 inacreditáveis anos de transformação positiva e reputação de uma marca ícone.

 

“The bond between Karl Lagerfeld and Fendi is fashion’s longest love story,
one that will continue to touch our lives for years to come. I am profoundly saddened by his passing and deeply touched by his constant care and perseverance until the very end. (…)

 

 

When we called him just days before the show, his only thoughts were on the richness and beauty of the collection.
It’s a true testament to his character. He shall be so missed.”

– Silvia Venturini Fendi

 

 

Mas a arte de Karl não se extinguiria com a dedicação à casa italiana e o estilista viu a sua popularidade dar o salto gigante quando, em 1983, entra na Chanel como diretor criativo e toma as rédeas da mítica casa francesa. Entre os anos 70 e 80 a Chanel viveu um período muito sensível e em fase decrescente, ao atravessar uma crise que não se manifestava apenas em estatísticas, mas também ao nível da identidade.

Com a entrada de Karl, a marca conseguiu resgatar a sua essência, retomou o seu tom feminino e respirou um novo ar de modernidade, numa altura em que os fatos Chanel eram cada mais vistos como algo que só seria de interesse para um target sénior e a cada ano se tornava mais esse o público da marca. Karl Lagerfeld rompeu com o passado e agarrou-se às raízes da marca para construir o futuro.

Seguindo as linhas de Coco Chanel, a mente fundadora por trás do que era a essência Chanel, Karl recuperou uma série de pormenores que definiam a marca, mas também – e sobretudo – recuperou uma atitude. E adaptou-a aos tempos que decorriam e naturalmente evoluíam: se os conjuntos de saia e casaco em tweed eram obrigatórios no ADN Chanel, também passaram a existir em versão mini-saia – e hoje em dia até os vemos em tons fluorescentes e com combinações de cores e detalhes inesperados.

A revolução nesta maison líder nas últimas décadas esteve bem à nossa vista e a quantidade de novas modas que lançou, topmodels que deu a conhecer ao mundo e até novos pontos de vista são uma herança indiscutível de Karl Lagerfeld. No ano seguinte ao da sua entrada na Chanel, ainda criava a sua marca em nome próprio, mundialmente conhecida por tantas e tão diferentes iniciativas, e o percurso do trabalho deste artista até hoje, em especial nestas três marcas em que se entregou, é o que acompanhamos desde os últimos anos: simplesmente único. E Karl revelou-se insubstituível.

A última coleção pensada e produzida por Karl Lagerfeld para a Chanel só podia ter sido apresentada assim, no último dia da Paris Fashion Week, entre lágrimas e pormenores que marcaram, ainda que sem homenagens, a sua última despedida.

No tão esperado dia em que se revelou esta coleção de outono-inverno, não houve novamente espaço para nostalgia ou tributos ao criador, dando-se à Chanel o habitual espaço de extravagância nos cenários e em todos os pormenores à volta do desfile, a começar pela location, que foi novamente o Grand Palais, em Paris, local de eleição para a marca desde 2006. Já a coleção para esta primavera tinha sido apresentada de forma pioneira, num contexto físico completamente inovador a replicar uma praia, com areia verdadeira, em que as modelos desfilavam as suas peças Chanel de sandália na mão e pés molhados, num cenário excêntrico que percorreu as notícias por todo o mundo. Era novamente Karl a ir mais longe.

Desta vez houve igual dose de irreverência, mas em versão de frio. O enorme local do desfile replicou fielmente e de forma incrível um cenário de aldeia alemã em plenos dias de inverno, uma vila alpina entre muita neve, chalés de madeira em tamanho real, fumo a sair das chaminés, montanhas perfeitas cheias de branco ao longe e ainda havia pista de ski. Esta era a visão de Karl para apresentar uma coleção extremamente voltada para os dias frios, em que todas as modelos, por exemplo, usaram a versão melhorada das botas de neve da Chanel. De que outra forma atravessariam um cenário de gelo? ;)

 

 

 


Mas, mais uma vez, mesmo sem a dose de saudosismo foram dedicados momentos a Lagerfeld. Antes do desfile começar cumpriu-se um minuto de silêncio em memória do criador, por parte da cidade de Paris, por todo o contributo e dedicação do génio alemão que desde tão cedo decidiu residir e criar valor (e assim riqueza e reconhecimento) na capital francesa.

De seguida quebra-se o silêncio com a voz do próprio artista, que explica como não queria aceitar a oferta da Chanel quando o chamavam, porque achava tudo demasiado antiquado e feito para pessoas velhas usarem. Mudou de ideias quando a rainha Isabel II assistiu a um desfile seu e lhe fez um comentário muito apreciativo… Que viria a mudar o destino da Chanel.

Depois de se recordar Karl, entrou a coleção com Cara Delevingne a abrir o desfile, musa eterna do artista que mostrou um primeiro look que por si só era uma homenagem a toda a essência que Coco Chanel um dia sonhou para a sua marca. Nos looks apresentados esteve toda a identidade da marca, com os tecidos dos fatos em tweed, os tradicionais combinados de preto e branco, os longos sobretudos até ao tornozelo, o inconfundível padrão pied de poule na totalidade dos coordenados e ainda as camisolas de malha muito elegantes, a combinar ao máximo com o cenário do desfile.

As características mais vincadas do criador também estiveram presentes por toda a coleção, com os detalhes ricos dos folhos nas camisas, os fios e correntes de ouro distribuídos pelos looks, coordenados de blazer e calças com padrão xadrez e ainda o arriscar com cores muito fortes e estilos largos desportivos em várias peças, misturadas com o clássico Chanel, para que a coleção não perdesse o tom jovem. Também as suas habituais malas em tamanho pequeno não faltaram e em versões que vão do clássico ao mais inovador… E são, como sempre, todas lindas. Por último, a assinatura de Karl vê-se nas suas já obrigatórias capas, que muitas modelos exibiram, pesadas mas elegantes, com ranhuras por onde saem os braços e marcam um statement final sobre qualquer look.

Este era o dicionário de elegância de Karl Lagerfeld. Agora já só nos falta mesmo passar os olhos pela sua última coleção. Nesta, Penélope Cruz pediu para desfilar e vestiu uma das peças principais, que combinou com uma suave rosa a simbolizar o adeus. Tal como tinha acontecido no desfile da Fendi, as manequins regressaram no fim a exibir a coleção em conjunto ao som da música “Heroes”, de David Bowie, bem ao gosto do homenageado, e foi o momento que teve direito a muitas palmas e também a maior dose de emoção. Como recordação do evento, cada convidado recebeu um sketch do próprio Karl Lagerfeld, juntando-se a Coco Chanel naquilo que parece ser uma conversa bem disposta. E, na sua própria caligrafia, pode-se ler:

 

The beat goes on…

 

 

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Fabulous Details

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

The End

 

 

 

 

 

 

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