Full Moon, Full Circle

Mesmo passados 50 anos, continua a ser impressionante ouvir da boca de Neil Armstrong aquele relato na chegada à Lua, assim como ver imagens de vídeo das 22 horas passadas em solo lunar, as fotografias da icónica pegada do calçado de Armstrong e a história arrepiante de todo o processo de preparação e treino intensivo que aqueles corajosos cumpriram para um dia isto ter sido possível. E no fim ainda regressaram vivos para contar a história, quais eternos heróis.

Passei a semana a pensar muito neste acontecimento histórico, não só porque os americanos começaram a festejar esta data logo na terça-feira, dia 16, quando fez os 50 anos da partida dos três astronautas deste planeta rumo a um gigante descobrimento, mas também porque logo nesse dia, e precisamente nesse dia, vivíamos um intenso eclipse lunar, dos que até conseguimos observar a olho nu. Parecia mesmo de propósito para celebrar esta data. Foi único.

Não sei quantas mais pessoas repararam nesta coincidência mágica, mas eu pelo menos considerei esta lua cheia muito mais especial e carregada de simbologia por imaginar aqueles físicos muito muito corajosos, exatamente 50 anos antes, a partir rumo a essa bolinha de luz branca e com probabilidade bem reduzida de regressar. Entregar aquelas mentes brilhantes ao espaço era uma realidade também muito difícil de aceitar… E eles foram na mesma. Neil Armstrong foi de facto um herói a comandar toda esta viagem desafiante de 8 dias, repletos de provações, medos e dúvidas, mas a Missão Apollo 11 acabou por ser mesmo cumprida. E com o maior sucesso!

É impossível tentar enaltecer tudo o que isto significou para o nosso mundo, porque ficaria muito longe de fazer justiça a este feito. Foi bom hoje acordar para as notícias da manhã (adorei a abordagem da RTP), ver toda a festa americana e recordar a intensidade das vivências neste dia de 1969. Relembrar de como eram as coisas na altura e como as pessoas o viveram: com extrema emoção, nos EUA e em todo o mundo. O tempo nesse dia parou e as respirações congelaram no momento em que Armstrong põe o seu pé humano na Lua.

Em Portugal tudo aconteceu em horário impróprio, já faltavam 4 minutos para as 4h da manhã, mas as pessoas estavam a pé para saber de tudo em tempo real. A ouvir na rádio ou a ver na TV. Queriam fazer parte, envolver-se. Reuniram-se em cafés para assistir a isto, juntos. Sabiam que testemunhavam um momento histórico que ia ser visto e revisto para todo o sempre. Adorei também ouvir portugueses a relatar o seu dia 20 de julho há cinquenta anos, do simbolismo que teve, da emoção sentida. E isto só em Portugal…

Da Lua regressaram três grandes mentes com memórias que os restantes comuns mortais nunca terão e que trouxeram consigo, entre outros tesouros, 27kg de material lunar, entre pedras, terra e poeira, para análises que até hoje nos valeram preciosas conclusões. Por exemplo, por ser possível calcular a idade de uma rocha, sabemos hoje que a Lua tem o mesmo tempo que a Terra, que andamos juntos desde sempre numa parceria tão forte que sentimos mesmo como mística. Aliás, ainda hoje um dos melhores cientistas portugueses confirmava em direto que a Lua tem efeitos sobre nós e que temos com ela esta ligação natural que só se veio a confirmar com a missão Apollo 11.

As luas têm influência direta sobre as marés e sabe-se também que foi através da força e movimento das marés que se criou o nosso mundo, que se foi definindo o nosso planeta Terra, em torno das fases da Lua. Teremos para sempre esta relação muito próxima e quase mágica. Da mesma forma, o nosso corpo é de tal forma composto por água que acaba por denunciar também os efeitos das fases da Lua. Mais alguém se tem sentido exausto que o normal ou passado más noites nesta semana? Os efeitos mais fortes deste eclipse lunar acalmam hoje, justamente também o dia em que terminava a Missão Apollo 11 há 50 anos atrás. Se tudo isto não é absolutamente fascinante, então não sei o que será. ❤

Entre muitas outras coisas, a bandeira americana ficou lá a marcar a autoria deste marco que nunca será esquecido, que é para sempre dos maiores do século XX – e também da história de toda a humanidade – mas que no fundo nos representa a todos (os humanos, e não só os EUA) nesta grande conquista. Porque nos juntou a todos num só momento, nos suspendeu no tempo e mesmo que não se consiga explicar bem o porquê desse fenómeno, é porque ele vai muito para além da ciência: é a aventura que fascina desta forma a alma humana. Todos os riscos, o perigo, mas a curiosidade insaciável por saber como tudo termina. Porque são pessoas reais que vão ali dentro. Porque um resultado positivo é quase surreal. Porque a sede de conquistar é algo que nunca vai terminar em nós… E todos vibramos juntos nestes momentos de ouro.

Enquanto humanidade sentimos muito a falta destes saltos, progressos e marcos importantes, tal como nas nossas vidas, se não tiverem constante evolução, datas de viragem e conquistas. Enquanto grupo também precisamos de parar para vibrar com algo em conjunto. Dá-nos esperança e alento e cultiva o mistério sobre o que poderá ainda vir a seguir… E celebrar agora o acontecimento faz-nos lembrar que este tipo de grandes conquistas tem abrandado e falta um pouco desse brilho e êxtase geral que havia dantes por um ou outro motivo, a juntar todos numa só emoção. Já não dá para continuar a procurá-lo em campeonatos de futebol do mundo (que de alguma forma também nos unem) ou na alegria também mágica (e de união) das passagens de ano, porque isso não chega.

Talvez agora seja a hora de nos unirmos numa nova alegria e prazer que é o de salvar o planeta. Se o fizermos também com sentido de missão, e com este espírito de união e alegria a pensar na emoção do resultado (e não a fazê-lo por castigo), então talvez seja essa a nossa próxima grande conquista. Num mundo globalizado mas cada vez mais individualista, talvez a próxima grande missão seja mesmo feita pelo incrível empenho e compromisso de milhões de individuais.

E, para esta missão, cada um de nós conta muito. Acho que hoje era mesmo o dia perfeito para nos unirmos ainda mais nesta diferente aventura. Porque cada dia fará a diferença. Vamos também ser heróis na nossa curta passagem pela Terra?

Vale a pena rever o filme First Man, que está a passar neste momento pela primeira vez na TV, para quem tiver TV Cine, e do qual já tinha falado aqui. Não haveria dia mais perfeito para o ver, se ainda não o fizeram.

Com isto tudo, agora só apetece ir dar uma última olhadela na Lua…

“A moon-flooded prairie; a straying
Of leal-hearted lovers; a baying
Of far away watching dogs; a dreaming
Of brown-fisted farmers; a gleaming
Of fireflies eddying nigh, —
And that is July!”

– A poem by James N. Matthews (1852–1910)

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