Fashion’s Biggest Night Out

A Met Gala conta com décadas de história e desde sempre causa muita ansiedade boa com as suas datas, pois sendo um evento ligado à arte permite a liberdade e transformação de quem participa. Em época de divulgação digital das imagens, esta noite de estrelas só tem ganho cada vez mais mediatismo e interesse por quem fica de fora, não só porque os designers de moda ficam também cada vez mais extravagantes ou expressivos com o passar do tempo, mas também porque temos acesso ao interior do evento como nunca antes aconteceu.

Bem, na verdade só são fotografados os convidados à chegada, ao percorrer a passadeira e a subir a escada principal do MET, e o resto já não é connosco… Embora hoje em dia já nos chegue publicamente um bocadinho do interior também. Eu admito que estava em countdown para este dia já duas semanas antes do evento, pelo tema espetacular que tinha sido escolhido, e ainda por todo o aparato em que andavam os fashion designers com esta tarde de Moda em Nova Iorque.

Só para contextualizar a importância deste evento: o MET é dos museus mais visitados no mundo (top3 anualmente) e talvez seja mesmo o mais famoso no nosso planeta. No coração de Nova Iorque, este importante monumento tem diferentes departamentos, causas e iniciativas nas áreas das artes, tendo como objetivo principal a coleção de riqueza artística, a continuidade dos estudos das artes, criando ao longo do tempo uma biblioteca de arte sem igual e a transmissão da cultura artística para a vida prática e quotidiana.

 

Um dos seus departamentos é o incontornável Costume Institute, que anualmente inaugura uma exposição com tema definido, que por sua vez acaba por ditar tendências ao nível de moda, artes no geral e mesmo ao nível da sociedade. Ou será ao contrário? Tudo está naturalmente ligado e estes temas têm tal importância que ao longo dos anos se tornaram numa parte fundamental de receitas e, acima de tudo, de notoriedade para o grande museu. Tudo isto por causa da Met Gala.

Há pelo menos seis anos que vou partilhando por aqui o melhor de cada Met Gala, mas se dantes não havia o culto do hate nas redes sociais e eu só partilhava alegremente os looks mais vistosos de cada evento, agora espalham-se pela Internet imagens descontextualizadas de caras que conhecemos tão bem a vestir-se escandalosamente para aquele dia. Como se precisassem da atenção. E as pessoas de fora ficam a criticar.

Por isto, hoje quis trazer só um pouquinho de informação primeiro, para quem quisesse saber alguns factos antes de aderir instintivamente a outro tipo de moda muito atual: o julgamento sem conhecimento.

 

A Met Gala, ou Costume Institute Gala, tem então elevada importância na divulgação do tema da exposição de cada ano, que por consequência também chama todas as atenções para esta área específica do grandioso Metropolitan Museum of Art.

Esta tarde de gala é acima de tudo uma importante angariação de fundos que anualmente se revela fundamental na estrutura desta instituição, de tal forma que já se tornou numa tradição e data de grande expectativa, pois todos aderem facilmente e “saem” para a apoiar.

Cada estrela que aceita o convite para este evento está a dar-lhe mais um pouco de notoriedade e prestígio.

 

 

Colloquially and affectionately referred to as ‘fashion’s biggest night out’,
the Met Gala 2019 is a pinnacle of iconic style. A fundraising benefit for the Metropolitan Museum of Art in New York City, the event welcomes celebrity stars, young creatives, and industry paragons alike. And the excitement doesn’t stop there—the gala also signifies the highly anticipated grand opening of the Costume Institute’s annual fashion exhibition.
– Vogue

Esta grande gala teve a sua primeira edição em 1948, exatamente com o mesmo objetivo de hoje em dia: o de angariação de fundos para apoiar esta secção de Moda do museu. Só a certa altura, com o passar do tempo, se tornou num evento de topo no que diz respeito ao luxo e a representação máxima de um encontro da alta sociedade, em Nova Iorque ou no mundo.

E se nesse primeiro jantar de luxo cada entrada custou 50 dólares, em 2019 cada bilhete já foi de 30.000 – é claro que com o título de donativo, que é o que na verdade se troca pela entrada nestes grandes eventos nova iorquinos. Este é apenas o rei de todos eles.

 

 

 

 

 

 

A Met Gala continua a ser um dos eventos sociais mais exclusivos no mundo inteiro
E é uma das maiores galas de angariação de fundos em Nova Iorque: este ano foram somados 15 milhões de dólares em donativos.

Mas nunca podemos olhar para os looks sem antes passarmos pelo tema
Nos últimos anos nunca o fiz por aqui e não seria hoje o dia…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Camp Camp Camp

O tema que se transmite a cada convidado da gala é exatamente o tema de guarda-roupa da exposição a apresentar nesse ano. Esta exposição do Costume Institute de 2019 ano foi inaugurada dias depois da grande gala – que constitui uma gigante manobra de marketing para divulgar essa vertente de arte do museu.

Assim se promoveu um tema ainda mais diferente do habitual, que rompeu absolutamente com tudo, e se deu aos convidados a liberdade para o interpretarem como entendessem, dias antes dele ser exposto ao público e figurando em peças de roupa e outros adereços no MET.

Camp: Notes on Fashion
foi o tema deste ano e muita, muita tinta correu à volta desta escolha

Não por crítica ao tema, mas pela dificuldade em defini-lo. Eu própria adiei a escrita desta parte, pois saltamos de imediato para algo abstrato, uma palavra que é mais um feeling inexplicável em relação à moda e às artes no geral. Aliás, em relação ao mundo. Uma perceção, interpretação, uma vibração… Vou tentar auxiliar-me com definições várias de artigos de moda credíveis, em vez de me arriscar a estragar algo tão rico, contemporâneo e abrangente como o conceito de Camp.

“What is camp? Listen, if you haven’t figured it out by now—maybe you never will! Over the past two months, one trillion lists and listicles have been written on camp, stabbing at the idea of artifice and style and exaggeration.”
– Vogue US

Camp: Notes on Fashion é exatamente o título do ensaio publicado pela escritora norte-americana Susan Sontag em 1964 e que tenta precisamente definir a moda num contexto do artificial, exagerado e até de muito mau gosto.

Camp pode definir-se entre muitas outras coisas, como aquilo que “é tão mau que se torna bom”. Camp define um lugar de compreensão dentro do incompreensível, um lugar onde é permitida (e incentivada) a coragem para explorar o poder da auto-expressão. Tudo isto fundido com um toque de humor.

 

 

 

 

 

 

“The whole point of [the fashion] gallery is that it’s a series of statements that Sontag and post-Sontagian scholars of camp have tried to define camp. We’ve grouped them together under 18 headings, but it’s sort of like an echo chamber, deliberately.”

– Andrew Bolton, the Metropolitan Museum of Art’s Wendy Yu Curator in Charge of the Costume Institute and the effective arbiter of all things campy – by Vogue US

“So, Camp is a question mark that won’t let its line be straightened up into an exclamation mark. I want people to leave thinking ‘What is camp?’. That is the power and the poetry behind camp, constantly trying to define it.”

 

 

 

 

 

 

Nesta gala o tema sobressaiu por ser mesmo uma espécie de apelo literal ao mau gosto e aparentemente toda a gente gostar disso. A explicação é fácil: esta é uma tendência natural dos nossos dias, como desculpa para abusar da teatralidade e artificialismo sem limitações, num aproveitar óbvio da oportunidade para expressão da liberdade e da diferença. Sempre que estes temas surgirem, as pessoas vão aderir.

A análise de Camp tem permitido compreender que esta tendência (abstrata) tem estado presente na Moda desde os últimos anos.

Muitos fashion designers têm passado as suas últimas coleções a fazer combinações pouco óbvias, chocantes, alguns mesmo com tentativa de atingir ou desconstruir o feio – e no fim vendem tudo na mesma. O culto dos ugly shoes ou tantas outras micro modas que pegam depois de se jurar que nunca alguém gostará daquilo…

Tem sido tudo Camp a chegar.
Até que agora o celebramos (e promovemos) gloriosamente.

 

 

 

 

 

 

 

A fantasia, o extraordinário, o explorar da estética até ao limite
são tudo elementos que estão na base deste conceito

O artifício, o excesso e o chocante são pontos obrigatórios ao falar de Camp, que cultiva o adorar do que não é natural. É um mistério. Algo que foi muito claro na interpretação de cada celebridade a marcar presença na Met Gala de 2019.

É claro que alguns nunca precisam de uma temática destas para se auto-expressar :)

 

 

 

 

Mas no fim o que é bom de notar é como toda a gente adorou este tema, o recebeu com excitação total, numa oportunidade de ser um pouco mais de si próprio por uma noite, explorar um lado diferente da sua personalidade, ou até experimentar uma personalidade diferente. Tudo coube nesta passadeira cor de rosa (alusiva ao tema). E nós vamos finalmente recordar os looks que, decididamente, ficam para sempre na história das Met Gala.

Senti muito as ausências de Blake Lively e Sarah Jessica Parker desta vez. Felizmente, as irmãs Olsen não falharam a habitual participação e ainda chegaram em Chanel Vintage ♥ Estrelas como Sara Sampaio e Josephine Skriver cumpriram o sonho de pela primeira vez participarem nesta gala. Brilhavam só da alegria de ali estar e o restante mundo compreende porquê. Com isto tudo, já estou mortinha de vontade por ver a próxima…

 

 

 

 

 

 

 

 

“O que é que a arquitetura de Gaudí em Barcelona, as figuras assexuadas do movimento artístico Art Nouveau, o Lago dos Cisnes e as entradas do metro de Paris (desenhadas por Hector Guimard, em 1890) têm em comum? Camp, todas elas são Camp. – Vogue Portugal

 

 

“É seguro dizer que estes dois universos, Moda e Camp, têm estado de mãos dadas.
O que explica a envergadura da exposição do Met que vai contar com peças de Franco Moschino, Marjan Pejoski, Palomo Spain, Viktor & Rolf, Alessandro Michele para a Gucci, Virgil Abloh para a Off-White e Bertrand Guyon para Schiaparelli. Ao todo serão 175 peças que corroboram a ideia que Camp e Moda são um casamento perfeito.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Camp é uma mulher que usa um vestido feito de três milhões de penas” (número 25);
“é demasiado, é demasiado fantástico, não dá para acreditar” (número 24); 
“é divertido, nada sério” (número 41); 
“Camp é bom porque é mau” (número 58)

– Do ensaio de 1964 de Susan Sontag,
pela Vogue Portugal

 

 

 

“A essência de Camp é o amor pelo não natural.
Camp é esotérico – uma espécie de código privado, um distintivo de identidade.” [é o]
“estilo acima do conteúdo, a estética acima da moralidade, a ironia acima da tragédia.”

Susan Sontag by Vogue Portugal

 

 

 

Recomendo a leitura do artigo completo da Vogue Portugal para melhor compreensão desta nova tendência, que vai muito para além da moda e é, isso sim, o manifesto de uma sociedade.

 

Met Gala of 2019

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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