13 Reasons Why – Depressão e Suicídio

Depois de três dias da morte de Chester Bennington, permanece a confusão à volta do que aconteceu, numa mistura aparvalhada – como em tudo na net – entre revolta e tristeza. De um lado há os que choram uma grande e chocante perda, do outro lado estão os que condenam o cantor. Mas esses são, certamente, daqueles que condenam seja o que for.

Afinal de contas, como podia um homem tão bem sucedido não ser feliz? O que lhe poderia faltar na vida? Amor não era certamente, tinha uma família unida e amorosa, filhos pequeninos, declarações de amor a cada dia da parte deles (mulher incluída), tinha amigos-porto-de-abrigo, dos que toda a gente quer ter e que eram a sua verdadeira família, tinha recursos e contactos, fãs a perder de vista, o mundo a seus pés, era admirado no que fazia, tinha uma vida de luxo e dinheiro de sobra.

No entanto, além disto tudo ainda tinha outra coisa: depressão. Para quem não dá o devido peso (e respeito) a esta palavra, então eu ajudo: ele sofria de uma doença mental real, que o consumia a cada dia, e naturalmente fazia desvalorizar tudo o resto que possuía na sua vida, por mais valioso que fosse e por mais que a razão lhe repetisse os incontáveis motivos para ser feliz. Como escrevia ontem o vocalista dos Moonspell,

Do lado negro, chegam os (…) melhores do que todos. Os que foram, com as suas palavras, matando, lentamente, este e outros ídolos. Não eram poucos. São cada vez mais. Os que não compreendem como um pai deixa seis filhos. Os que não têm simpatia pela depressão, clinicamente comprovada, mas nunca respeitada pelas massas. Os que fazem memes com forcas. Os que condenam o suicídio sem olhar ao que o precede. Os que fazem da Humanidade, um lugar triste para viver. E quem são eles? Somos todos nós.

É verdade que este ambiente de ódio barato, infiltrado um pouco por todo o lado e disseminado pelas redes sociais, está a destruir muitos valores de compreensão, empatia, tolerância e entreajuda entre quem se deixa contaminar pela quantidade de revoltados/mal formados/descontrolados que andam por aí a espalhar frustração. Só lê quem quer, só se deixa afetar quem quiser, mas a verdade é que estes grupos fazem-se ouvir (ou não fosse esse o trabalho das minorias) e criam cada vez mais um ambiente hostil para tudo o que se tenta fazer, explicar, criar, opinar.

Por outro lado… Preocupa-me a normalização do suicídio nestes dias. Não me levem a mal, eu adorava o cantor e a banda (que também não deverá sobreviver). O único gato domesticado que já tive chamava-se Chester e não era coincidência. Além disso, não faço ideia do que possa ser a dor insuportável de perder um melhor amigo ou um grande amor.

Mas se num lado temos a imediata condenação social, no outro extremo de comportamento temos a compreensão demasiado aberta a essa decisão, como se fosse uma opção como qualquer outra, como se todos nós já tivéssemos passado por isso. Como se, quando estamos em guerra com a vida, pudéssemos escolher entre ir ao médico, fazer terapia, aprender a dançar, mudar de vida, fazer voluntariado ou cometer suicídio. Quando é que isto virou uma das opções óbvias? Entramos numa onde de suicídio por imitação e a minha preocupação é o que me traz hoje a esta reflexão.

Esta é das poucas coisas que não nos aparece mais do que antes porque a internet nos mostra mais do que antes. Esta é precisamente uma das consequências da internet nos mostrar tudo. Banaliza tudo, incluindo os nossos valores individuais e méritos. Faz-nos sentir menos que os outros, se deixarmos isso acontecer. E faz-nos querer compreender quem perde as forças para viver nesta selva em que se está a tornar o mundo. Querem mesmo entrar neste ciclo de angústia, frustração e revolta? Deixem-me ser spoiler aqui: ele é 100% auto-destrutivo e não há sucesso ou felicidade no fim.

 

E por falar em spoils… Um último comentário à série que dá o nome ao post.
A série 13 Reasons Why reflete um pouco desta fase de que falava, a da “normalização do suicídio” e é por isso que aproveitei hoje para falar desses episódios (não sei se de outra forma o faria).

Quando escolhi ver a série, sabia ao que ia: história sobre teenagers, vida de highschool com bullings e dramas de adolescentes e a história de um suicídio a protagonizar todo o enredo. Sabia que ia ver as treze razões que levaram a adolescente ao suicídio, só não sabia que ela seria a heroína da série, que eu tinha de compreender e assinar por baixo cada um dos treze motivos, que eu no fim quase tinha de ponderar se não é uma saída viável para a minha vida também.

Ok, aqui talvez esteja a exagerar, mas quem viu a série deve compreender o que estava a tentar dizer. No mínimo, somos levados a compreender profundamente a jovem, que recebeu todos os sinais do mundo para fazer aquela escolha. Mais: somos obrigados a sentir culpa pelas pessoas que escolhem acabar com as suas vidas, como se fosse porque não lhes demos a mão, porque as olhámos de lado, porque não as amparámos nas suas dúvidas existenciais. A série gira em volta de distribuir culpas e deixar nos restantes estudantes a vontade de se matarem também. Há alguma mensagem saudável no meio de tudo isto?

Se é correto julgar, condenar ou minimizar quem passa por uma depressão? Nunca! Se temos de ajudar? Devíamos. Mesmo. Se somos os culpados por uma pessoa cair nessa condição? Não. Se temos de adivinhar quando uma pessoa precisa de ajuda? Não propriamente. Por outro lado, se o mundo, tal como está, entupido de atitudes individualistas, ajuda a estas doenças e comportamentos suicidas? Cada vez mais…

Se devíamos criticar, olhar pessoas de lado, ser mesquinhos, preconceituosos, intolerantes, revoltados, insuportáveis e desumanos? Nunca na vida: a nossa vida devia basear-se em praticar o amor e afeto, diariamente. Se o mundo fica cada vez mais podre a cada pessoa que já acorda a olhar para o próprio umbigo e a contaminar o espaço circundante? Absolutamente. Se esta realidade triste e frustrante torna o suicídio numa opção viável e natural? A resposta continua a ser um “não” redondo.

A série foi muito criticada pela homenagem que presta ao suicídio. O facto da protagonista (a suicida) quase se glorificar de o ter feito e, já depois de morta, vir atormentar a vida dos amigos e se mostrar (repito: já depois de morta) mais esperta do que eles, distribuindo ordens e regras do jogo, não ajudou. Eu ao segundo episódio já estava decidida a desistir da série, até que uma amiga me incentivou a ver tudo e acabei por gostar e compreender quem gosta da história, pelos restantes motivos.

Acho que a série está muito bem feita, é envolvente, emocionante (coisa que eu não percebia nos primeiros episódios), moderna, não exagerada, equilibrada. No fundo, eu vejo-a como uma história de amor, só por isso é que gostei, porque adorei o co-protagonista e tudo em volta dele. Espero ver a segunda temporada, mas porque gostei da emoção da história e não necessariamente pela mensagem que passa. Acho perigosa, confusa, e fico a pensar nos adolescentes deprimidos que possam ver aquilo. Fico a temer pelas pessoas de qualquer idade que estejam na corda bamba quando assistem à série. Aliás, há várias histórias de adolescentes que se mataram por assistir a 13 Reasons Why…

 

 

 

Penso que é perigoso andar por aí nos dias de hoje. Temos de ter cuidado com tudo o que dizemos e com o que fazemos,  ou corremos o risco de ofender alguém. Mas não andam já os ofendidos todos sempre prontos a condenar seja o que for? Não anda por aí gente a mais, sem vida própria e de dedo apontado, grudada na net para julgar alguém logo pela fresca? Se o alvo for rico e famoso, tanto melhor.

No entanto, não vale a pena entregarmo-nos à frustração de assistir ao “mundo a arder”. Há sempre o que fazer – sim, todos podemos melhorar isto, basta escolher o lado em que queremos estar: o da indignação ou o da compreensão, o da condenação ou o da tolerância, o do ódio e revolta ou o do amor. Eu pessoalmente escolho sempre o último, porque sei que o estado das coisas atualmente e a sociedade poderão melhorar, enquanto estivermos em maior número que os revoltados. Eu trabalho diariamente nesse sentido. Só assim sabemos que podemos dormir de noite sem remorsos pelos demónios, transtornos e dor por que passam os outros.

Vamos ajudar mais? Começa ainda hoje: olha com um sorriso, carinho e respeito para cada pessoa à tua volta. Se comentares online, comenta só o que apoias e comenta com um elogio. Se gastas parte do teu dia online (sem ser a trabalhar), conta esse tempo, sem batotas, e pergunta-te como esse desperdício te está a prejudicar pessoalmente e a prejudicar o mundo. O que poderias estar a fazer de melhor com esse tempo? Por ti ou pelos outros? Seja o que for, já estarias a contribuir :) baby steps. O importante é acreditar, querer participar… E finalmente tomar real ação. Começas agora?

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1 Comment

  • S* says:

    Eu já queria ver essa série, mas agora fiquei super curiosa. Não fazia ideia de que acabará por fazer os espectadores sentirem-se culpados…